A CARTA
AMANDA HUX
Muito cansada, abriu a porta do pequeno apartamento. Olhou para a mesa, diferente do resto da sala havia em torno uma triste luz amarela. Viu o envelope branco. Lembrou-se. A carta. Aproximou –se . No verso, um remetente. Não ousou ler o nome. Estática, quedou-se em seguida ,e chorou. Menina pequena não entendera o Universo. Via-se de joelhos, e um bravo pai com um enorme terço na mão. Todos estavam condenados ao fogo do inferno. O pecado rondava a moradia. De joelhos, pedia-se perdão, todos os dias. Meninas puxam as saias e não mostram os joelhos. O Deus era amedrontador. A pequena Eva tremia. Ouvia o badalar dos sinos “”Nunca Mais” “Nunca Mais”
Pensava numa forma de se esquivar desse Inferno com demônios cheios de lanças. “Nunca Mais” Precisava adiar a morte. A angústia era tanta que trombava nas coisas, e as pessoas a chamavam de sonsa. Tinha muito medo “Nunca Mais”” Na escola sentava nas últimas carteiras, naquelas encostadas na parede do fundo. Escondia-se atrás de colegas e com os braços dobrados na mesa, a cabeça recostada, chorava. “Nunca Mais”Só conseguia ouvir histórias. Talvez nelas descobrisse uma forma de se livrar daquele terrível Inferno e daquela voz “Nunca Mais”
Havia no alto do armário uma grande coleção encadernada de capa azul e letras douradas. Abria as suas páginas e lia tensa e curiosa todas as histórias. Seu desejo era desvendar o enigma e ludibriar Deus para não cair no terrível Inferno. O segredo que descobrira era coisa de adultos pecadores. E descobrira com apenas seis anos.
De repente ,lembrou-se do Grande Pai que chegaria do trabalho e tremeu. Tinha medo, muito medo. Aquele tio que chegava bêbado em casa abrira para ela a porta do Inferno. Ela não podia morrer , não morreria nunca, daria um jeito de escapar daqueles demônios com lança.
Aproximava-se o terrível Dia da Primeira Comunhão. A voz dizia “não pecarás contra a castidade” O padre ouvindo no confessionário Ela tremia e muito, muito triste. De repente, o padre era aquele asqueroso Tio ,e ela tremia...Deus não quis ouvir sua confissão. A professora dissera que tinha que confessar e dizer tudo para não ir para o Inferno. Mas e o padre!!!!!!! que virou monstro e era o tio. Não podia contar nada para ninguém, o pecado era horrível. Na comunhão , a hóstia cheia de sangue, a condenação ao Inferno. O resto da vida um cuidar para não morrer nunca. O destino estava selado. Lembrou-se da Carta na mesa. Olhou e chorou.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Guimarães Rosa, médico da família
Depois de formado, foi Guimarães Rosa exercer a profissão em
Itaguara, município de Itaúna, onde permaneceu por dois anos. A razão da
escolha foi que lhe haviam dito não existir médico por aquelas bandas. E na
verdade, era excelente iniciar a profissão sem concorrência...
Aproveitava todos os momentos disponíveis para estudar (
mesmo durante as viagens a cavalo), e de tal modo se familiarizou com a
profissão que era capaz de dar o diagnóstico apenas pela fisionomia do doente.
Cobrava as visitas que fazia como médico, pelas distâncias que, a cavalo, tinha
que percorrer. Nem podia ser de outra forma, porque, quando chegava ao local, o
dono da casa a fim de baratear a consulta, aproveitava-lhe a presença para uma
revisão geral da saúde da família. Médico dedicado, acabou por se tornar
respeitadíssimo naquelas regiões. Perder um doente era para ele, particularmente,
algo de trágico. E uma vez em que isso aconteceu ficou aflitíssimo, sem saber
que resolução tomar. Foi uma noite de agonia.
Vida e Obra de João Guimarães Rosa em Primeiras Estórias
sábado, 6 de julho de 2013
PARA SALVAR O BRASIL...
Para salvar o Brasil é necessário que os brasileiros, que ainda não pensaram nisso, passem a rever os seu conceitos de Ética, Honestidade, Responsabilidade. Passem a rever as mentiras que contam na frente dos filhos, passem a perceber que não é natural passar a perna em alguém, fazer maracutaia para sonegar impostos. E ainda que as Escolas sejam a extensão dessas atitudes, cobrando mensalidades justas, taxas de diplomas segundo a lei, cumprindo as leis trabalhistas...a lista é grande, mas em cada detalhe cuidado se planta uma árvore sadia, honesta neste país de falcatruas, desrespeito...e tal...e tal... E que os alunos aprendam a honestidade com seus superiores...as novas gerações, com seus pais que além de gritar por um Brasil melhor, saibam se comportar como cidadãos
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Direita? Equerda?
Sabe qual é o problema, prima! Gostaria de dar outro nome pois já há preconceito com os nomes direita e esquerda. Quando surgiu no século XIX OU XIII, a primeira fábrica quando o trabalho deixou de ser manufaturado ou artesanal. Ou seja, antes o trabalhador fazia e vendia o seu produto e sabia qual era o seu ganho e trabalhava o tempo que quisesse, pensava, idealizava, criava, usava portanto as mãos e a cabeça. Na fábrica, passou a trabalhar um absurdo de horas, ganhando um mísero salário, não pensava porque era mandado, e o patrão acumulava o lucro para fazer crescer o seu negócio. Por sinal, o patrão só pensava e (rsssss hoje tem que fazer musculação). Daí nasceu o conceito de direita e esquerda. Direita para cuidar do acúmulo de bens e esquerda para os interesses do trabalhador. Para mim existe um arquétipo de pessoas que só pensam em acumular, só pensam em ter, entre o seu conforto e do seu empregado, só pensam em si mesma, não abrem mão dos lucros em prol do bem estar do seu empregado, não cumprem as leis trabalhistas, não tem senso de alteridade, não sabem respeitar e olhar no olho do outro. Só pensam no meio ambiente, nos índios, nas favelas, se não prejudicarem o seu lucro. Até fazem caridade, mas caridade é tornar o outro dependente. A Ditadura, coronéis autoritários, policiais agressores, a mídia que pertente a donos de grandes fortunas têm muito medo da esquerda que defende os trabalhadores , talvez por causa do risco de ter que mudar o rumo dos seus bens. Na verdade, corrupção é a base da educação do brasileiro, o que é obvio, a grande mídia só divulga quando é da esquerda. Sempre trabalhei no serviço público. A ditadura era desonesta, os Pasquim da vida eram recolhidos. a Direita tem muito mais poder porque é dona dos meios de produção, agora tem até pobre que tem espírito de direita, fazendeiro que explora empregado, pequenos comerciantes.
Se você acha que o Aécio e outros tem sensibilidade pela vida do trabalhador ...È um grande representante da Direita...A mídia protege os seus iguais, o poder protege porque o poder do Capital é mais poderoso do que o poder do trabalhador que vive sem entender e dividido. A Dilma de esquerda, sensível ao trabalhador e tem que negociar com um bando da Direita porque é um governo democrático, so povo não entende isso. A globo é esperta, só entrevista Cientistas Políticos que são de esquerda na Globo News, assistida por uma minoria de pessoas intelectutalizadas. A esquerda não quer usurpar os bens da direita quer que haja respeito. Esse Feliciano é um produto da direita, conservador, preconceituso, autoritário. È bom lembrar que a Dilma não é Ditadora. Haja jogo de cintura para lidar com o pensamento de Direita. Tem que negociar insatisfeita para manter o equilíbrio. Qualquer aluno que frequenta os Cursos de Ciências Sociais , Políticas de uma boa Universidade entende disso. Tenho minhas dúvidas do julgamento do mensalão. Até em Sete Lagoas , já vi coisas. Acusarem pessoas com banalidades de falso moralismo e o grave do poderoso as pessoas se calarem. Se a mídia capitalista, poderosa, não divulga os mal feitos da Direita, eu divulgo. Fiz isso em Sete Lagoas e fui agredida verbalmente na rua
Se você acha que o Aécio e outros tem sensibilidade pela vida do trabalhador ...È um grande representante da Direita...A mídia protege os seus iguais, o poder protege porque o poder do Capital é mais poderoso do que o poder do trabalhador que vive sem entender e dividido. A Dilma de esquerda, sensível ao trabalhador e tem que negociar com um bando da Direita porque é um governo democrático, so povo não entende isso. A globo é esperta, só entrevista Cientistas Políticos que são de esquerda na Globo News, assistida por uma minoria de pessoas intelectutalizadas. A esquerda não quer usurpar os bens da direita quer que haja respeito. Esse Feliciano é um produto da direita, conservador, preconceituso, autoritário. È bom lembrar que a Dilma não é Ditadora. Haja jogo de cintura para lidar com o pensamento de Direita. Tem que negociar insatisfeita para manter o equilíbrio. Qualquer aluno que frequenta os Cursos de Ciências Sociais , Políticas de uma boa Universidade entende disso. Tenho minhas dúvidas do julgamento do mensalão. Até em Sete Lagoas , já vi coisas. Acusarem pessoas com banalidades de falso moralismo e o grave do poderoso as pessoas se calarem. Se a mídia capitalista, poderosa, não divulga os mal feitos da Direita, eu divulgo. Fiz isso em Sete Lagoas e fui agredida verbalmente na rua
FEMM de minhas memórias
Fiquei muito triste com o pessoal que foi para o UNIFEMM, desconhecendo a legislação trabalhista das escolas particulares, desconhecendo que existe um Sindicato dos Professores que acorda todo ano com o Sindicato das Escolas Particulares uma legislação própria, diversa das Escolas Federais e Municipais. Isso causou um rombo financeiro na Escola pela qual lutei desde a minha Juventude, que "nasceu" como Fundação Sem Fins Lucrativos e com a contribuição , inclusive afetiva de toda a população setelagoana. Ela foi o símbolo da minha esperança de jovem. Como não podia estudar em BH, pude, em 1970, realizar o meu grande sonho de frequentar uma Faculdade. Esse desrespeito ao professor causou o meu adoecimento, o que é pior, foi um dos motivos que acelerou o falecimento da Professora Mirian. Em 1978, ela e a professora Nádya, me ligavam solicitando que fosse lecionar na Faculdade. Na época eu tinha especialização em Teoria da Literatura e entre... professores da Federal que tinham Mestrado, quase não havia quem quisesse lecionar em Sete Lagoas porque não compensava financeiramente. Dr Marcelo Vianna não permitia a redução de aulas dos professores porque havia experimentado um desfalque com uma ação trabalhista de um professor de BH. A FEMM cresceu com o sacrifício de muitos. Antes de morrer, a Mirian me ligava em prantos porque lhe tinha sido retirado um projeto de Inglês, que ela criara desde o ano de 1974, e que para funcionar ela mesma limpava as salas aos sábados nos prédios que eram alugados. Ela pedia uma contribuição simbólica aos alunos, e pagava professores, autores de obras de Inglês do seu próprio bolso, e com aquele perfil de professora amorosa, do interior, levava mimos para os alunos. A Nádya Paiva e muitos outros professores pioneiros que tiveram a coragem de levar o sonho em frente da Escola que só depois do plano Collor , depois de muitas batalhas pode remunerar com dignidade seus professores, merecem o nosso reconhecimento e respeito. Graças a Deus sobrevivo com saúde para dar esse depoimento. Espero que outros possam dar o seu, pois as histórias de dor não se encerram aqui."
Histórias da UNIFEMM
Fiquei muito triste com o pessoal que foi para o UNIFEMM, desconhecendo a legislação trabalhista das escolas particulares, desconhecendo que existe um Sindicato dos Professores que acorda todo ano com o Sindicato das Escolas Particulares uma
legislação própria, diversa das Escolas Federais e Municipais. Isso causou um rombo financeiro na Escola pela qual lutei desde a minha Juventude, que "nasceu" como Fundação Sem Fins Lucrativos e com a contribuição , inclusive afetiva de toda a população setelagoana. Ela foi o símbolo da minha esperança de jovem. Como não podia estudar em BH, pude, em 1970, realizar o meu grande sonho de frequentar uma Faculdade. Esse desrespeito ao professor causou o meu adoecimento, o que é pior, foi um dos motivos que acelerou o falecimento da Professora Mirian. Em 1978, ela e a professora Nádya, me ligavam solicitando que fosse lecionar na Faculdade. Na época eu tinha especialização em Teoria da Literatura e entre professores da Federal que tinham Mestrado, quase não havia quem quisesse lecionar em Sete Lagoas porque não compensava financeiramente. Dr Marcelo Vianna não permitia a redução de aulas dos professores porque havia experimentado um desfalque com uma ação trabalhista de um professor de BH. A FEMM cresceu com o sacrifício de muitos. Antes de morrer, a Mirian me ligava em prantos porque lhe tinha sido retirado um projeto de Inglês, que ela criara desde o ano de 1974, e que para funcionar ela mesma limpava as salas aos sábados nos prédios que eram alugados. Ela pedia uma contribuição simbólica aos alunos, e pagava professores, autores de obras de Inglês do seu próprio bolso, e com aquele perfil de professora amorosa, do interior, levava mimos para os alunos. A Nádya Paiva e muitos outros professores pioneiros que tiveram a coragem de levar o sonho em frente da Escola que só depois do plano Collor , depois de muitas batalhas pode remunerar com dignidade seus professores, merecem o nosso reconhecimento e respeito. Graças a Deus sobrevivo com saúde para dar esse depoimento. Espero que outros possam dar o seu, pois as histórias de dor não se encerram aqui.Gostaria ainda de acrescentar que a UNIFEMM nasceu com uma identidade humanista. Nasceu com a missão de formar Profissionais da Educação e do Direito para toda a região. Lembro-me da alegria da primeira turma de Letras formadas por pessoas de importância Educacional na cidade e que não tiveram oportunidade de fazer uma Faculdade na época de jovens, pessoas mais maduras e jovens Cito alguns Professor Simões, Dona Isis Valace, Nancy Zumerly, Professor Godoy, A Hoje Professora da UFMG Reinilde Dias, Marialves Dias, Léa Drummond, Adna Hadad, Maria das Graças ...e muitos outros que serão citados por alguns desses colegas .Lembro-me ainda do Diretor Dr Wilson Veado, da Secretária, Dona Cléia que guarda consigo toda a memória da UNIFEMM e que seria interessante ser entrevistada. Da vocação humanista passou a priorizar o universo tecnológico. Mas a sua identidade Sem Fins Lucrativos que beneficiou tantos jovens pobres da região e tantos municípios que puderam ampliar o número de escolas, como a sua função essencialmente Humanista jamais poderão ser esquecidas.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
AVÔ, PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR VERBO SER
Pai e mãe são ótimos, mas têm mais o que fazer. Mesmo avó não dispõe de muito tempo para conversa, ocupada em fazer doce, consertar roupa velha e dar conselho. Bom é avô.
Vida cumprida, avô pode inventar moda, como o velho Jáder fazia, me levando, em lombo de burro, para buscar
água na cacimba, a não sei quantas léguas de casa, dia ainda escuro. Mostrar ao neto o raiar do sol é a primeira
mágica de um bom avô. E ir à padaria, na volta, comprar pão quentinho, levar para casa, passar manteiga, encher um
copo de café com leite e dizer: "Bebe".
O Jáder contava histórias, falava palavrão não muito forte, dava mau exemplo, fumando e depois mascando o
que sobrava do cigarro, e chamava atenção para as moças que passavam pela praça: "Olha, olha essa!"
Dono da mais sofrida da pobreza, a que sobrevém a uma vida de fartura, o Vovô nunca reclamou de nada.
Passava o dia em uma oficina improvisada no quintal de nossa casa, roendo saudade e mexendo nuns tais de "rádio
galena", que não usavam eletricidade (nem pilha), mas funcionavam. Parece que é uma pedra capaz de captar ondas
sonoras, que ele amplificava, com conhecimento técnico e com o pensamento nos pobres, para os quais vendia a
geringonça, a preço simbólico e com a vantagem de não aumentar a conta de luz.
Era para os pobres, também, que ele catava rodas, selins, pedais e guidons abandonados nas ruas. Durante o
ano inteiro, ia montando novas bicicletas, velocípedes e patinetes, que levava para as comunidades carentes, no Natal.
E me levava junto, para as primeiras noções de solidariedade e amor ao próximo.
Estou contando isso porque tenho três netas e estou fazendo 60 anos. Acho que quis me dar um presente. Ou
um futuro. É.
TEXTO DE CARLOS ALBERTO CASTELO BRANCO
DO SITE DO MARCELLINO
REDEMOCRATIZAÇÃO, ESCOLA E ENSINO DA LÍNGUA
Li o texto do João Drummond narrando a história de um professor catedrático que,numa viagem de ônibus, se irritava com a conversa de dois matutos, por causa do linguajar dos mesmos. Sobre a história, e a partir da mesma ,desejo fazer alguma considerações.
Em 1970, na UFMG,o meu professor de Português, Luis Carlos Alves, escreveu um livro com o título, GRAMÁTICA NUNCA MAIS, em que propunha o ensino da Língua sem a decoreba da Gramática, e sim através da produção de textos. Adorei, especialmente porque quando frequentava os antigos cursos ,ginasial e normal, as aulas de português se resumiam em análises sintáticas,especificamente, de "Os Lusíadas", primoroso poema épico de Camões. Em casa escrevia poemas adolescentes, na escola nada.
Em 1970, na UFMG,o meu professor de Português, Luis Carlos Alves, escreveu um livro com o título, GRAMÁTICA NUNCA MAIS, em que propunha o ensino da Língua sem a decoreba da Gramática, e sim através da produção de textos. Adorei, especialmente porque quando frequentava os antigos cursos ,ginasial e normal, as aulas de português se resumiam em análises sintáticas,especificamente, de "Os Lusíadas", primoroso poema épico de Camões. Em casa escrevia poemas adolescentes, na escola nada.
Ainda na Faculdade de Educação, aprendi com a inesquecível mestra Magda Soares que não se aprende a escrever corretamente fazendo exercícios isolados de aplicação da gramática.
Como futuros professores de Português, Comunicaçao e Expressão ou Língua Portuguesa ( como quiserem) deveríamos nos empenhar em levar nossos alunos a escrever diversos tipos de diferentes textos. Ao revisar os textos juntamente com os alunos,nos orientaríamos
Isso me fazia lembrar da época em que eu era obrigada a estudar ênclises, próclises e mesóclises de verbos que eu nunca usaria e nem sabia o significado. para o professor se colocar diante de mim como o Diretor do Ateneu, de Raul Pompéia, que a cidade respeitava e admirava porque não entendia nada do que ele dizia.
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
quarta-feira, 4 de julho de 2012
SE NAMORADA...
Leio
Saramago como se namorada fosse
Concluo e
conclamo a morte como um bálsamoMemórial do Convento e um plano vôo de Blimunda
A dor dos
que são calados pelo vento.
Viver é
morrer lentamente em vão...
No desvão da
memória vivamos de palavras.
Até que a
vida nos separe para sempre.
Inferno de
Dante.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
ANIVERSARIO EM QUIXADÁ
As paredes frias tateavam o chão
O silêncio mudo me olhava sorrateiro
A tarde se esvaía na modorra
A chuva não vinha
Imóvel, calada no tempo
Formigas iam e vinham na fresta do cimento
Eu nada sabia do castigo
Quatros anos de MENINA
Passavam...
sexta-feira, 4 de maio de 2012
INTERLÚDIO
Quando sair de cena
Sairei de ladoDevagar como entrei
Inútil
Sem pais
Sem país
Sem vida
Sem histórias pra contar
Sairei ao vento
pela cortina rota e suja
que entrei.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
VOU BRINCAR DE ESCRITORA
Vou brincar de escritora
sair da letargia
do medo de escrever meu segredo
vou brincar de escritora
invocar meus saramagos
drummond e´sagrado
estatua na praia
no mar de ipanema
sair da letargia
do medo de escrever meu segredo
vou brincar de escritora
invocar meus saramagos
drummond e´sagrado
estatua na praia
no mar de ipanema
vou brincar de escritora
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Lungaretti e a mídia sobre o caso Battisti
18 de Abril de 2011 - 15h53
Lungaretti espinafra a cobertura da mídia sobre o caso Battisti
O jornalista e ex-preso político Celso Lungaretti integrou o grupo que, em 2009, visitou o italiano Cesare Battisti na penitenciária da Papuda em Brasília. Seu objetivo era ouvir a versão pessoal de Battisti — que foi condenado na Itália por quatro homicídios e aguarda decisão da Justiça brasileira.
Em entrevista a Luiz Gustavo Pacete, do Portal Imprensa, Lungaretti lembra que, quando visitou Battisti, presenciou um perfil do escritor muito diferente do que a imprensa retrata. A experiência o motivou ainda mais a defender uma campanha pela libertação de Battisti, em oposição à grande mídia.
Segundo Lungaretti, a primeira impressão do presídio em que está o italiano foi pouco opressiva. "Abracei Battisti sem que nenhum segurança se preocupasse com a possibilidade de lhe passar algum contrabando. Decididamente, não o consideram perigoso", ironiza.
O jornalista, de 58 anos, critica a forma como o italiano é retratado na imprensa brasileira: "Já passei pelos porões e prisões da ditadura, sei de uma série de fotos do Cesare, feitas por um profissional. Muitas o tornarão simpático aos leitores e outras não", afirma sobre a manipulação de imagens que pode ser feita na prisão. Lungaretti passou por torturas em unidades do Destacamento de Operações de Informações (DOI) e Centro de Operações de Defesa Interna de SP e RJ quando foi preso político.
Leia abaixo a entrevista.
Portal Imprensa: Muitos de seus artigos criticam a cobertura da imprensa sobre o caso Battisti...
Celso Lungaretti: A próxima decisão sobre o caso está por vir, acredito que depois da semana santa. E vejo agora que na reta final parece que a imprensa pretensiosa não vê mais chance de interferir no caso. Ela parece ter tirado seu time de campo após ter conduzido uma ação orquestrada por parte de alguns jornais e revistas quando o então ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou o refúgio. 19 abr
Jaime
Lungaretti espinafra a cobertura da mídia sobre o caso Battisti
O jornalista e ex-preso político Celso Lungaretti integrou o grupo que, em 2009, visitou o italiano Cesare Battisti na penitenciária da Papuda em Brasília. Seu objetivo era ouvir a versão pessoal de Battisti — que foi condenado na Itália por quatro homicídios e aguarda decisão da Justiça brasileira.
Em entrevista a Luiz Gustavo Pacete, do Portal Imprensa, Lungaretti lembra que, quando visitou Battisti, presenciou um perfil do escritor muito diferente do que a imprensa retrata. A experiência o motivou ainda mais a defender uma campanha pela libertação de Battisti, em oposição à grande mídia.
Segundo Lungaretti, a primeira impressão do presídio em que está o italiano foi pouco opressiva. "Abracei Battisti sem que nenhum segurança se preocupasse com a possibilidade de lhe passar algum contrabando. Decididamente, não o consideram perigoso", ironiza.
O jornalista, de 58 anos, critica a forma como o italiano é retratado na imprensa brasileira: "Já passei pelos porões e prisões da ditadura, sei de uma série de fotos do Cesare, feitas por um profissional. Muitas o tornarão simpático aos leitores e outras não", afirma sobre a manipulação de imagens que pode ser feita na prisão. Lungaretti passou por torturas em unidades do Destacamento de Operações de Informações (DOI) e Centro de Operações de Defesa Interna de SP e RJ quando foi preso político.
Leia abaixo a entrevista.
Portal Imprensa: Muitos de seus artigos criticam a cobertura da imprensa sobre o caso Battisti...
Celso Lungaretti: A próxima decisão sobre o caso está por vir, acredito que depois da semana santa. E vejo agora que na reta final parece que a imprensa pretensiosa não vê mais chance de interferir no caso. Ela parece ter tirado seu time de campo após ter conduzido uma ação orquestrada por parte de alguns jornais e revistas quando o então ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou o refúgio. 19 abr
Jaime
segunda-feira, 25 de abril de 2011
MUDARAM AS CRIANÇAS?
Sueli Caramello Uliano
Brequei para não levar porrada, mas levei
Dou-me conta de que tropecei nos últimos anos em semáforos que, mais do que parar, me fizeram pensar... Ou seja, brequei para não levar porrada, mas levei. Conto aqui alguns casos que de alguma forma se entrelaçam, certa de que ninguém me acusará de estar tocando trombeta à frente de umas parcas esmolas.
Há alguns anos, estando em evidência uma das piores rebeliões na Febem, parei num cruzamento de grandes avenidas. O dia estava quente, o trânsito ruim... E eu no esforço, acreditando que ia dar tempo para tudo, ora se ia! Observo distraída um garoto de treze ou catorze anos... E ele rouba-me de repente a atenção com um gesto aparentemente banal: aproxima-se de um carro e levanta a camisa para mostrar-se desarmado, depois estende a mão e os olhos em direção ao motorista que faz por ignorá-lo. Repete o gesto, repete-se a indiferença... e o menino vem caminhando, descalço, frustrado. Dói-me essa humilhação de pôr-se sob suspeita, de sentir-se acusado esmolando inocência, alegando eu peço mais num róbo, quem sabe! Semáforo demorado, vou-me sentindo espremida entre o vermelho e o menino que avança... Quando, no entanto, ele faz menção de passar à minha direita, não me contenho e faço-lhe um sinal... E me lembro tardiamente de que o último troquinho eu tinha usado na padaria. Fico, assim, entre a carteira e o menino que encostou na minha janela. A menor nota é de dez! Abro uma nesga do vidro e passo a nota dobrada. O menino dá dois passos para trás, ergue os braços arqueados, as mãos fechadas em punhos e se põe a pular e gritar obrigado, dona,Deus lhe pague, dona... E eu queria sumir no banco, acusada por todos os lados por alimentar essa cambalhada, por dar dinheiro que não se sabe como vai ser gasto, dinheiro para droga? para "pais de rua"? Sei lá! Só sei que vi o rapaz correr por entre os carros como se levasse um tesouro, uma fortuna. Tomara levasse um pouco de dignidade. Para mim, caía por terra o mito de que se fatura uma fortuna nessa mendicância.
Lembrei-me desse episódio devido a este, mais recente: parada num semáforo, observo a garotinha magricela que caminha mancando, os pés descalços pelando no asfalto, um sol ardido de meio-dia. Paro no mesmo local duas horas depois e lá está a menina, que, desta vez chega até mim. Pergunto-lhe por que manca e ela explica: é que eu tô cum furunculão na sola du pé, tia!. A mãe? Está no outro semáforo e vai levá-la à farmácia mais tarde. Chateada e impotente, abro a carteira e passo-lhe um real pela fresta do vidro. A pequena agradece e num tom sofrido de quem confere, cansada, o resultado da própria competência nesta dureza de vida, suspira: É o meu primeiro real, hoje, tia! E eu, ainda com a carteira na mão, não tenho dúvidas: dou dez. A menina parece travada, olha ao redor de si e diz num choramingo: Déis real! Onze real! Um companheirinho - talvez irmão - implora-me, colado ao vidro, com o olhar... E olha para a menina, consciente de que a fonte esgotou-se. E a menina entrega a ele a nota de um real. O sinal verde abre-me o caminho de fuga.
Dias depois, mesmo lugar, paro na primeira fila rente à faixa de pedestres, e lá vem o miúdo suposto irmão, sem camisa, o calçãozinho desabado nas ancas. Pára à esquerda do carro, logo à frente, estende uma cordinha no chão e me instrui com a voz e com o gesto: Vem, tia, avança! E eu obedeço, engatando a primeira e... Volta, tia, volta um pouquiiinho... Engato a ré... Aí... isso, tia! E ele se põe a puxar com força, satisfeito, a corda que ficou presa sob o pneu, rindo da proeza que - permitam-me - nós realizamos. Depois ele encosta o rosto no vidro onde mal alcança e, como eu esperava, pede: Posso fazer um bibi, aí, tia? Surpresa, hesito em abrir a janela, com a impressão de que ele não alcançará a buzina... E o verde vem estragar a nossa brincadeira. Da próxima vez eu deixo! Imagino a orquestra de bibis que me atacariam se eu ficasse ali, brincando!!!
No mesmo dia, à noite, do outro lado da cidade, estou no carro lotado de amigas, mas, desta vez, no banco do co-piloto. O moleque - talvez oito ou dez anos - chega-se à janela da motorista, imprudentemente aberta devido ao calor. Dá uma moeda aí, tia. A Meire explica que não tem troco. Ele engrossa a voz e repete ameaçadoramente gutural: Dá uma moeda, aí! E eu vejo, contrariada, que a Meire começa a catar no porta-treco do carro algumas moedas. Moeda, mesmo? Ou você quer nota? Sem resposta, ela entrega as moedinhas e o menino se afasta. Meire! - estou boquiaberta com a mansidão dela - O menino engrossa a voz e você obedece? É ela quem se surpreende, então. E você não viu o caco de vidro? Se eu mexo o braço esquerdo, ele me risca com a ponta. De fato, eu não vira que o pequeno estava "armado"!
Sei que todos têm muitas histórias como essas para contar. Além de que - ninguém o ignora - há desfechos terrivelmente trágicos. Que fazem essas crianças nas ruas? Meu pai, filho de imigrantes italianos, aos seis anos subia numa banqueta para fazer pequenos trabalhos manuais. Minha mãe, aos doze, trabalhava, com documentos falsos, numa tecelagem. E assim todos os meus tios e tias mais velhos brincavam de ganhar trocados entregando jornais e engraxando sapatos, ajudando na quitanda na hora de maior movimento, levando o almoço para o pai, na fábrica. Se havia exploração, era uma exploração que, via de regra, não resultava em delinqüência. E fora isso, já no meu tempo, todos gostávamos e pedíamos, às vezes: Mãe, posso brincar na rua? Porque a rua era espaçosa e agradável, dava para correr num pega-pega veloz, montar um mãe-da-rua autêntico, andar de bicicleta e carrinho de rolimã na calçada larga; bandidos e mocinhos escondiam-se atrás dos postes de iluminação.
Mudaram as crianças? Não! Com certeza, não! As crianças continuam brincando de ganhar trocados, ou roubá-los e enfrentar um pega-pega, e cumprir com as exigências da mãe-de-rua, do pai-de-rua. Não mudaram as crianças! Mudou, sem dúvida, a família que as acolhe. E mudou a rua! É claro que não defendo a exploração de pôr criança para trabalhar... Mas também não defendo a delinqüência! Defendo, sim, o direito de receber educação, de aprender as exigências da vida a cada passo, a cada ano, na dose certa. E defendo a oportunidade de brincar, de vibrar com as descobertas, de sonhar com um bibi... Porém não nas ruas de hoje... Defendo a austeridade de um governo que tenha moral de proibir a criança na rua e lhe dê escola e amparo antes de que se torne infrator. Que saiba defender esse brasileirinho mirrado, essa vida severina, sem olhá-la como se fosse a escória que não devia ter nascido. E fazer dela um rebento de oliveira, ao redor da mesa farta, no calor de um lar. Porque nesse jogo de brincadeiras e irresponsabilidade que rola nas ruas de hoje, já não se aprende a ser mocinho. A escola é para bandidos que, às vezes, brincam de matar, outras, de morrer.
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Sueli Caramello Uliano , mãe de familia, pedagoga, Mestra em Letras pela Universidade de São Paulo, Presidente do Conselho da ONG Família Viva, Colunista do Portal da Família e consultora para assuntos de adolescência e educação.
É autora do livro Por um Novo Feminismo pela QUADRANTE, Sociedade de Publicações Culturais.
e-mail: scaramellu@terra.com.br
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Brequei para não levar porrada, mas levei
Dou-me conta de que tropecei nos últimos anos em semáforos que, mais do que parar, me fizeram pensar... Ou seja, brequei para não levar porrada, mas levei. Conto aqui alguns casos que de alguma forma se entrelaçam, certa de que ninguém me acusará de estar tocando trombeta à frente de umas parcas esmolas.
Há alguns anos, estando em evidência uma das piores rebeliões na Febem, parei num cruzamento de grandes avenidas. O dia estava quente, o trânsito ruim... E eu no esforço, acreditando que ia dar tempo para tudo, ora se ia! Observo distraída um garoto de treze ou catorze anos... E ele rouba-me de repente a atenção com um gesto aparentemente banal: aproxima-se de um carro e levanta a camisa para mostrar-se desarmado, depois estende a mão e os olhos em direção ao motorista que faz por ignorá-lo. Repete o gesto, repete-se a indiferença... e o menino vem caminhando, descalço, frustrado. Dói-me essa humilhação de pôr-se sob suspeita, de sentir-se acusado esmolando inocência, alegando eu peço mais num róbo, quem sabe! Semáforo demorado, vou-me sentindo espremida entre o vermelho e o menino que avança... Quando, no entanto, ele faz menção de passar à minha direita, não me contenho e faço-lhe um sinal... E me lembro tardiamente de que o último troquinho eu tinha usado na padaria. Fico, assim, entre a carteira e o menino que encostou na minha janela. A menor nota é de dez! Abro uma nesga do vidro e passo a nota dobrada. O menino dá dois passos para trás, ergue os braços arqueados, as mãos fechadas em punhos e se põe a pular e gritar obrigado, dona,Deus lhe pague, dona... E eu queria sumir no banco, acusada por todos os lados por alimentar essa cambalhada, por dar dinheiro que não se sabe como vai ser gasto, dinheiro para droga? para "pais de rua"? Sei lá! Só sei que vi o rapaz correr por entre os carros como se levasse um tesouro, uma fortuna. Tomara levasse um pouco de dignidade. Para mim, caía por terra o mito de que se fatura uma fortuna nessa mendicância.
Lembrei-me desse episódio devido a este, mais recente: parada num semáforo, observo a garotinha magricela que caminha mancando, os pés descalços pelando no asfalto, um sol ardido de meio-dia. Paro no mesmo local duas horas depois e lá está a menina, que, desta vez chega até mim. Pergunto-lhe por que manca e ela explica: é que eu tô cum furunculão na sola du pé, tia!. A mãe? Está no outro semáforo e vai levá-la à farmácia mais tarde. Chateada e impotente, abro a carteira e passo-lhe um real pela fresta do vidro. A pequena agradece e num tom sofrido de quem confere, cansada, o resultado da própria competência nesta dureza de vida, suspira: É o meu primeiro real, hoje, tia! E eu, ainda com a carteira na mão, não tenho dúvidas: dou dez. A menina parece travada, olha ao redor de si e diz num choramingo: Déis real! Onze real! Um companheirinho - talvez irmão - implora-me, colado ao vidro, com o olhar... E olha para a menina, consciente de que a fonte esgotou-se. E a menina entrega a ele a nota de um real. O sinal verde abre-me o caminho de fuga.
Dias depois, mesmo lugar, paro na primeira fila rente à faixa de pedestres, e lá vem o miúdo suposto irmão, sem camisa, o calçãozinho desabado nas ancas. Pára à esquerda do carro, logo à frente, estende uma cordinha no chão e me instrui com a voz e com o gesto: Vem, tia, avança! E eu obedeço, engatando a primeira e... Volta, tia, volta um pouquiiinho... Engato a ré... Aí... isso, tia! E ele se põe a puxar com força, satisfeito, a corda que ficou presa sob o pneu, rindo da proeza que - permitam-me - nós realizamos. Depois ele encosta o rosto no vidro onde mal alcança e, como eu esperava, pede: Posso fazer um bibi, aí, tia? Surpresa, hesito em abrir a janela, com a impressão de que ele não alcançará a buzina... E o verde vem estragar a nossa brincadeira. Da próxima vez eu deixo! Imagino a orquestra de bibis que me atacariam se eu ficasse ali, brincando!!!
No mesmo dia, à noite, do outro lado da cidade, estou no carro lotado de amigas, mas, desta vez, no banco do co-piloto. O moleque - talvez oito ou dez anos - chega-se à janela da motorista, imprudentemente aberta devido ao calor. Dá uma moeda aí, tia. A Meire explica que não tem troco. Ele engrossa a voz e repete ameaçadoramente gutural: Dá uma moeda, aí! E eu vejo, contrariada, que a Meire começa a catar no porta-treco do carro algumas moedas. Moeda, mesmo? Ou você quer nota? Sem resposta, ela entrega as moedinhas e o menino se afasta. Meire! - estou boquiaberta com a mansidão dela - O menino engrossa a voz e você obedece? É ela quem se surpreende, então. E você não viu o caco de vidro? Se eu mexo o braço esquerdo, ele me risca com a ponta. De fato, eu não vira que o pequeno estava "armado"!
Sei que todos têm muitas histórias como essas para contar. Além de que - ninguém o ignora - há desfechos terrivelmente trágicos. Que fazem essas crianças nas ruas? Meu pai, filho de imigrantes italianos, aos seis anos subia numa banqueta para fazer pequenos trabalhos manuais. Minha mãe, aos doze, trabalhava, com documentos falsos, numa tecelagem. E assim todos os meus tios e tias mais velhos brincavam de ganhar trocados entregando jornais e engraxando sapatos, ajudando na quitanda na hora de maior movimento, levando o almoço para o pai, na fábrica. Se havia exploração, era uma exploração que, via de regra, não resultava em delinqüência. E fora isso, já no meu tempo, todos gostávamos e pedíamos, às vezes: Mãe, posso brincar na rua? Porque a rua era espaçosa e agradável, dava para correr num pega-pega veloz, montar um mãe-da-rua autêntico, andar de bicicleta e carrinho de rolimã na calçada larga; bandidos e mocinhos escondiam-se atrás dos postes de iluminação.
Mudaram as crianças? Não! Com certeza, não! As crianças continuam brincando de ganhar trocados, ou roubá-los e enfrentar um pega-pega, e cumprir com as exigências da mãe-de-rua, do pai-de-rua. Não mudaram as crianças! Mudou, sem dúvida, a família que as acolhe. E mudou a rua! É claro que não defendo a exploração de pôr criança para trabalhar... Mas também não defendo a delinqüência! Defendo, sim, o direito de receber educação, de aprender as exigências da vida a cada passo, a cada ano, na dose certa. E defendo a oportunidade de brincar, de vibrar com as descobertas, de sonhar com um bibi... Porém não nas ruas de hoje... Defendo a austeridade de um governo que tenha moral de proibir a criança na rua e lhe dê escola e amparo antes de que se torne infrator. Que saiba defender esse brasileirinho mirrado, essa vida severina, sem olhá-la como se fosse a escória que não devia ter nascido. E fazer dela um rebento de oliveira, ao redor da mesa farta, no calor de um lar. Porque nesse jogo de brincadeiras e irresponsabilidade que rola nas ruas de hoje, já não se aprende a ser mocinho. A escola é para bandidos que, às vezes, brincam de matar, outras, de morrer.
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Sueli Caramello Uliano , mãe de familia, pedagoga, Mestra em Letras pela Universidade de São Paulo, Presidente do Conselho da ONG Família Viva, Colunista do Portal da Família e consultora para assuntos de adolescência e educação.
É autora do livro Por um Novo Feminismo pela QUADRANTE, Sociedade de Publicações Culturais.
e-mail: scaramellu@terra.com.br
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
MORTE DO PROFESSOR KASSIO
A morte dolorosa desse professor é , pela minha experiência de 41 anos de magistério,expressão extrema do desrespeito que permeia o dia a dia de escolas estaduais e particulares ,em vários sentidos.
Merece uma profunda reflexão.
A Escola, que deve ser transformadora, tem reproduzido, muitas vezes, as piores práticas do capitalismo corrupto em que vivemos. O pior é que são práticas não tão perceptíveis como sendo violentas. Desrespeitos a leis trabalhistas. Manipulação nas contratações. Assédio moral.
Isso tudo praticado pelas gestôes despreparadas com relação a professores, funcionários e alunos.
A alienaçao política dos professores enquanto grupo que não percebe nos "deslizes" cotidianos praticados atos de corrupçâo, e que opta por se calar para não ficar "mal" com as escola ou ,o que é pior, levar vantagem com a perda do colega , gera um ambiente perverso de falsidade, de insegurança,de muito desgaste e conflitos que vão refletir no ambiente de sala de aula.Professores que não são respeitados, nao respeitam colegas e acabam por desrespeitar o direito dos alunos, como bem avaliar, entregar notas em dia e,o pior, até humilhar.
E, muitas vezes, os que tentam ser melhores, justos, honestos é que pagam os mais altos preços. As tensões vão se acumulando e a corda rebenta em qualquer lugar.
Estou desolada e perplexa. O sentimento que tenho é que a Escola não quer mudar, e por isso está implodindo.A Escola doente adoece cada vez mais os seus.
Onde a Salvação?
Merece uma profunda reflexão.
A Escola, que deve ser transformadora, tem reproduzido, muitas vezes, as piores práticas do capitalismo corrupto em que vivemos. O pior é que são práticas não tão perceptíveis como sendo violentas. Desrespeitos a leis trabalhistas. Manipulação nas contratações. Assédio moral.
Isso tudo praticado pelas gestôes despreparadas com relação a professores, funcionários e alunos.
A alienaçao política dos professores enquanto grupo que não percebe nos "deslizes" cotidianos praticados atos de corrupçâo, e que opta por se calar para não ficar "mal" com as escola ou ,o que é pior, levar vantagem com a perda do colega , gera um ambiente perverso de falsidade, de insegurança,de muito desgaste e conflitos que vão refletir no ambiente de sala de aula.Professores que não são respeitados, nao respeitam colegas e acabam por desrespeitar o direito dos alunos, como bem avaliar, entregar notas em dia e,o pior, até humilhar.
E, muitas vezes, os que tentam ser melhores, justos, honestos é que pagam os mais altos preços. As tensões vão se acumulando e a corda rebenta em qualquer lugar.
Estou desolada e perplexa. O sentimento que tenho é que a Escola não quer mudar, e por isso está implodindo.A Escola doente adoece cada vez mais os seus.
Onde a Salvação?
sábado, 20 de novembro de 2010
Receita para se esquecer um grande amor
Marcelo Maroldi
+ de 232900 Acessos
+ 101 Comentário(s)
Às vezes eu fecho os olhos, inspiro e procuro sentir a presença de quem já não está por perto. É um método que eu inventei tempos atrás..., e uso sempre quando o amor se transforma em saudade.
Os grandes amores existem. As grandes paixões existem. Eles existem. Eles simplesmente existem. Eu desejo que todo ser humano possa sentir o que eu um dia já senti. Somente uns poucos minutos daquele entorpecimento juvenil, daquela inundação de sentimentos que enlouquecem, daquela loucura toda que te envolve, te amedronta, aquela confusão monstruosa que vivi quando amei. E quando fui amado. Uma paixão avassaladora que me fez acreditar que eu ainda permanecia vivo. Vivo e amando. E amado. Mas, agora, eu fecho os olhos para dormir. A cama cresceu tanto de tamanho, o meu peito cada vez está menor. E muito mais vazio. Ninguém a me ninar. A minha mão não encontra a sua. Quem foi que viu a minha Dor chorando?! (Augusto dos Anjos, "Queixas Noturnas". Mas, no meu caso, diurnas também). Eu quero uma receita para se esquecer um grande amor, o senhor tem aqui para vender? O preço não me interessa, eu só quero poder seguir em frente. Nem precisa ser em frente..., basta seguir. Porque A minha vida sentou-se/ E não há quem a levante (Mário de Sá-Carneiro, "Serradura").
E o vazio logo aparece, não dá um minuto de folga (“meter a cara no trabalho” é algo que também não tem funcionado). O telefone não toca naquela hora, a minha caixa de e-mails não tem pena de mim, já não tem novidade boa a me contar. Uma sensação leve e prematura de derrota logo se apodera da gente. Depois ela cresce. Já não é mais sensação, é derrota mesmo. Eu não tenho mais para quem escrever os meus defeituosos poemas, a quem dedicar meus pensamentos, quem vai me acalmar quando a agonia aparece sem avisar? Eu me sinto tão sozinho. Por vezes eu nem me sinto. Meus olhos não vertem lágrimas, o meu coração não dispara. Será mesmo que estou vivo? Ainda nem maldisse toda a minha sina e mazela, nem afoguei minhas (agora) crônicas mágoas na cachaça libertadora, também não há outro perfume no meu corpo. Viver é amar, um dia me explicaram direitinho. Eu era inocente e acreditei. Só inocentes e tolos crédulos aprendem isso, eu tive o azar de ser um deles. Nem ouso reclamar.
Quando acordei foi em você que eu pensei. Provavelmente pensei em ti durante toda a noite também, mas dessa vez tive a sorte de não recordar. Não importa como minha vida esteja seguindo, é sempre em seu sorriso que meus pensamentos se convergem. Não há fuga nem plano B. Eu aprendi que não é te esquecendo que irei me livrar de você. Não importa quanto tempo transcorra, jamais me esquecerei daquela noite, aquela, quando estupefata você ouviu minha curtíssima e derradeira declaração de amor. Metade do tempo eu reflito sobre o que ela significou e o que ela irá se tornar em alguns parcos anos. Logo, meu coração será de outra, as suas coisas queimarei no quintal (afastando a cachorra para que não se queime) e essa frase eu voltarei a dizer. Mas não para ti, jamais para ti, nunca mais para ti... Você será apenas uma lembrança, feito tantas outras, e eu serei apenas uma lembrança para você... feito tantas outras. Já não me amas? Basta! Irei, triste, e exilado/ Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho (Olavo Bilac, "Desterro").
Quem errou mais? Isso não importa agora, logo, posso ficar com toda culpa pelo nosso fracasso. Sempre sonhei com algo diferente, como nos contos de fadas e nos pagodes de três notas (e se me perguntam Que era mesmo que eu queria?/ ”Eu queria uma casinha/ Com varanda para o mar/ Onde brincasse a andorinha/ E onde chegasse o luar”, Vinicius de Moraes, "Sombra e Luz"). A realidade foi deveras distinta disso, só Deus é testemunha das minhas queixas. Mas, nesse momento, nada disso importa, nada do que doeu agora importa. Eu vou ficar aqui, sozinho, com minhas lembranças e nosso fracasso. Vou lembrar das partes boas, para me emocionar com a saudade. Não lembrarei de nenhuma briga, nem nada disso! Eu quero uma receita para esquecer dos momentos ruins, dos bons eu não preciso. Não preciso e não quero. Para que esquecer do que me orgulho? Do que me fez feliz? Deixa a saudade me machucar, meu anjo, uma hora ela se cansa. Eu não abro mão de recordar o quanto fomos felizes. Acabou, mas não sem muito amor. É o fim, mas não antes de muitas promessas de eterna felicidade. É isso o que vale, afinal. Eu busco isso a cada instante de minha vida.
Mas agora ele está lá e eu aqui. Ele está lá seguindo a vida dele, e eu estou aqui, seguindo a minha. Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte (Neruda, "Aqui eu te amo"). Ela esta lá vivendo a vida dela como se nada tivesse acontecido. Acho, realmente não sei dizer (Teus olhos são duas silabas/ Que me custam soletrar./ Teus lábios são dous vocábulos/ Que não posso,/ Que não posso interpretar Fagundes Varela, "Canção Lógica"). Eu aqui, não triste, mas saudoso. Às vezes eu olho para os céus para descobrir se sinto algo de novo. Quem sabe um daqueles meus suspiros. Passo horas olhando as estrelas, sem entender por que elas brilham. Elas deveriam fazê-lo somente quando você fosse minha, não em qualquer situação. Mas você segue a sua vida, almoça feliz e se diverte enquanto procuro a receita para te esquecer. Sei que não irei sofrer, o que me castiga é a saudade. Não irei chorar, nem lamentar, tampouco desejar a morte. Irei apenas seguir em frente, sozinho agora, às vezes pensando: o que será que ela faz nesse momento?, agora que chove lá fora! O que será que ela faz? Será que pensa em mim? Será que sorri? Eu abro os braços para envolver a minha vida.
Lembra da música da Elis? Vou querer amar de novo e se não der eu não vou sofrer...? Preciso te dizer a verdade: se isso acontecer, eu vou sofrer sim, meu coração só existe para amar de novo, espero que você entenda. Eu sigo a minha vida por aqui, você continue a sua por aí. Se consegui a receita para se esquecer de um grande amor? Não, parece que isso não existe mesmo. A minha é seguir em frente, então, e quando não der, chorar, não há problema nenhum isso, quem aprende a amar, aprende a chorar também (Paulinho da Viola, "Amor Amor") . Eu aprendi, pratiquei contigo, jamais te esquecerei.
Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida...
(Mario Quintana, "Inscrição para uma lareira")
"O ganhador", Lêdo Ivo (sempre ele!):
Tudo o que ganhei se desfez no ar como uma metáfora.
Agora só guardo o que perdi:
o vento que soprava na colina,
a neve que caía no aeroporto
e o teu púbis dourado, o teu púbis dourado.
Nota do Autor
Este texto faz parte da trilogia que começou com "Dos amores possíveis".
Marcelo Maroldi
São Carlos, 3/8/2006
Marcelo Maroldi
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Às vezes eu fecho os olhos, inspiro e procuro sentir a presença de quem já não está por perto. É um método que eu inventei tempos atrás..., e uso sempre quando o amor se transforma em saudade.
Os grandes amores existem. As grandes paixões existem. Eles existem. Eles simplesmente existem. Eu desejo que todo ser humano possa sentir o que eu um dia já senti. Somente uns poucos minutos daquele entorpecimento juvenil, daquela inundação de sentimentos que enlouquecem, daquela loucura toda que te envolve, te amedronta, aquela confusão monstruosa que vivi quando amei. E quando fui amado. Uma paixão avassaladora que me fez acreditar que eu ainda permanecia vivo. Vivo e amando. E amado. Mas, agora, eu fecho os olhos para dormir. A cama cresceu tanto de tamanho, o meu peito cada vez está menor. E muito mais vazio. Ninguém a me ninar. A minha mão não encontra a sua. Quem foi que viu a minha Dor chorando?! (Augusto dos Anjos, "Queixas Noturnas". Mas, no meu caso, diurnas também). Eu quero uma receita para se esquecer um grande amor, o senhor tem aqui para vender? O preço não me interessa, eu só quero poder seguir em frente. Nem precisa ser em frente..., basta seguir. Porque A minha vida sentou-se/ E não há quem a levante (Mário de Sá-Carneiro, "Serradura").
E o vazio logo aparece, não dá um minuto de folga (“meter a cara no trabalho” é algo que também não tem funcionado). O telefone não toca naquela hora, a minha caixa de e-mails não tem pena de mim, já não tem novidade boa a me contar. Uma sensação leve e prematura de derrota logo se apodera da gente. Depois ela cresce. Já não é mais sensação, é derrota mesmo. Eu não tenho mais para quem escrever os meus defeituosos poemas, a quem dedicar meus pensamentos, quem vai me acalmar quando a agonia aparece sem avisar? Eu me sinto tão sozinho. Por vezes eu nem me sinto. Meus olhos não vertem lágrimas, o meu coração não dispara. Será mesmo que estou vivo? Ainda nem maldisse toda a minha sina e mazela, nem afoguei minhas (agora) crônicas mágoas na cachaça libertadora, também não há outro perfume no meu corpo. Viver é amar, um dia me explicaram direitinho. Eu era inocente e acreditei. Só inocentes e tolos crédulos aprendem isso, eu tive o azar de ser um deles. Nem ouso reclamar.
Quando acordei foi em você que eu pensei. Provavelmente pensei em ti durante toda a noite também, mas dessa vez tive a sorte de não recordar. Não importa como minha vida esteja seguindo, é sempre em seu sorriso que meus pensamentos se convergem. Não há fuga nem plano B. Eu aprendi que não é te esquecendo que irei me livrar de você. Não importa quanto tempo transcorra, jamais me esquecerei daquela noite, aquela, quando estupefata você ouviu minha curtíssima e derradeira declaração de amor. Metade do tempo eu reflito sobre o que ela significou e o que ela irá se tornar em alguns parcos anos. Logo, meu coração será de outra, as suas coisas queimarei no quintal (afastando a cachorra para que não se queime) e essa frase eu voltarei a dizer. Mas não para ti, jamais para ti, nunca mais para ti... Você será apenas uma lembrança, feito tantas outras, e eu serei apenas uma lembrança para você... feito tantas outras. Já não me amas? Basta! Irei, triste, e exilado/ Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho (Olavo Bilac, "Desterro").
Quem errou mais? Isso não importa agora, logo, posso ficar com toda culpa pelo nosso fracasso. Sempre sonhei com algo diferente, como nos contos de fadas e nos pagodes de três notas (e se me perguntam Que era mesmo que eu queria?/ ”Eu queria uma casinha/ Com varanda para o mar/ Onde brincasse a andorinha/ E onde chegasse o luar”, Vinicius de Moraes, "Sombra e Luz"). A realidade foi deveras distinta disso, só Deus é testemunha das minhas queixas. Mas, nesse momento, nada disso importa, nada do que doeu agora importa. Eu vou ficar aqui, sozinho, com minhas lembranças e nosso fracasso. Vou lembrar das partes boas, para me emocionar com a saudade. Não lembrarei de nenhuma briga, nem nada disso! Eu quero uma receita para esquecer dos momentos ruins, dos bons eu não preciso. Não preciso e não quero. Para que esquecer do que me orgulho? Do que me fez feliz? Deixa a saudade me machucar, meu anjo, uma hora ela se cansa. Eu não abro mão de recordar o quanto fomos felizes. Acabou, mas não sem muito amor. É o fim, mas não antes de muitas promessas de eterna felicidade. É isso o que vale, afinal. Eu busco isso a cada instante de minha vida.
Mas agora ele está lá e eu aqui. Ele está lá seguindo a vida dele, e eu estou aqui, seguindo a minha. Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte (Neruda, "Aqui eu te amo"). Ela esta lá vivendo a vida dela como se nada tivesse acontecido. Acho, realmente não sei dizer (Teus olhos são duas silabas/ Que me custam soletrar./ Teus lábios são dous vocábulos/ Que não posso,/ Que não posso interpretar Fagundes Varela, "Canção Lógica"). Eu aqui, não triste, mas saudoso. Às vezes eu olho para os céus para descobrir se sinto algo de novo. Quem sabe um daqueles meus suspiros. Passo horas olhando as estrelas, sem entender por que elas brilham. Elas deveriam fazê-lo somente quando você fosse minha, não em qualquer situação. Mas você segue a sua vida, almoça feliz e se diverte enquanto procuro a receita para te esquecer. Sei que não irei sofrer, o que me castiga é a saudade. Não irei chorar, nem lamentar, tampouco desejar a morte. Irei apenas seguir em frente, sozinho agora, às vezes pensando: o que será que ela faz nesse momento?, agora que chove lá fora! O que será que ela faz? Será que pensa em mim? Será que sorri? Eu abro os braços para envolver a minha vida.
Lembra da música da Elis? Vou querer amar de novo e se não der eu não vou sofrer...? Preciso te dizer a verdade: se isso acontecer, eu vou sofrer sim, meu coração só existe para amar de novo, espero que você entenda. Eu sigo a minha vida por aqui, você continue a sua por aí. Se consegui a receita para se esquecer de um grande amor? Não, parece que isso não existe mesmo. A minha é seguir em frente, então, e quando não der, chorar, não há problema nenhum isso, quem aprende a amar, aprende a chorar também (Paulinho da Viola, "Amor Amor") . Eu aprendi, pratiquei contigo, jamais te esquecerei.
Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida...
(Mario Quintana, "Inscrição para uma lareira")
"O ganhador", Lêdo Ivo (sempre ele!):
Tudo o que ganhei se desfez no ar como uma metáfora.
Agora só guardo o que perdi:
o vento que soprava na colina,
a neve que caía no aeroporto
e o teu púbis dourado, o teu púbis dourado.
Nota do Autor
Este texto faz parte da trilogia que começou com "Dos amores possíveis".
Marcelo Maroldi
São Carlos, 3/8/2006
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
THEIA VIVA - Tecnologia Social - Uma Revista Eletrônica: PORQUE TRIPUDIAR SOBRE NOSSOS COMBATENTES? ISTO AG...
THEIA VIVA - Tecnologia Social - Uma Revista Eletrônica: PORQUE TRIPUDIAR SOBRE NOSSOS COMBATENTES? ISTO AG...: "Não faz muito tempo resgatei neste Blog um pouco da história daqueles da minha geração que decidiram participar ativamente no combate à dita..."
domingo, 4 de julho de 2010
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